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Ernest Ranglin

Você pode nomear três pessoas que te influenciaram musicalmente? Bob Marley:  ...”gosto do guitarrista Ernest Ranglin"...
Foram essas as palavras do rei do reggae, em 1975, em entrevista concedida a Fiksha Cumbo, em Nova Iorque, publicada no livro "Bob Marley - Reggae King of the World".

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O lendário guitarrista Ernest Ranglin é tal vez o maior músico jamaicano “além reggae” reconhecido internacionalmente. Nascido em Manchester, Jamaica, 1932, ele segue sua carreria com muita vitalidade, a mesma que tinha quando criança, quando tratava de imitar os tios com suas guitarras e ukelele.

Pura História

Nos seus anos de formação, começou a traçar seus próprios dedilhados como guitarrista, tremendamente influenciado pelas gravações de Charlie Christian e de um local chamado Cecil Hawkin. Aos 16 anos participou do seu primero grupo, The Val Bennett Band, e logo tocou com a banda de Eric Dean (que incluiria na formação a Don Drummond, Lloyd Knibbs, Rico Rodríguez e a vários dos músicos que posteriormente conheceríamos como os Skatalites entre outros).

Nos anos 50, já com uma elavada habilidade com seu instrumento, Ranglin iniciou uma série de turnês pelo Caribe e em palcos locais. Nesta época, o próprio Les Paul, lhe presenteou com uma guitarra, depois de ter visto o jamaicano em ação. O trombonista Rico Rodríguez já contou em entrevistas que “habitualmente os músicos da ilha se reuniam na casa do também guitarrista Jah Jerry (aluno de Ranglin e guitarrista original dos Skatalites) para estudar harmonias sob a batuta de Ranglin”. O homem é pura história.

My Boy Lollipop

Por volta de 1959, Ranglin passou a integrar a backing band de Cluett J and the Blues Blasters, liderados pelo baixista Cluett Johnson , que por um largo período trabalhou para o produtor Clement "Sir Coxsone" Dodd, especialmente nas primeiras gravações de R&B que lentamente se dissipavam pela ilha caribenha.

O grupo gravou bastante na já extinta JBC (Jamaica Broadcasting Corporation), incluindo temas como “Easy Snappin” (Theo Beckford) e “Shufflin Jug” (versão de “Little Brown Jug”, de Glen Miller, que aqui conta com o doce trombone de Rico). Alguns dos membros dessa banda eram Aubrey Adams, o baterista Ken Williams e o guitarrista Keith Stoddart.Também nessas sessões encontramos a um jovem chamado Monty Alexander, que áquela altura tomava aulas no Jamaica College, e em suas horas vagas participava das gravações do Federal Studios, tudo isso antes de que Alexander imigrasse para os EUA onde integraria a banda do genial Nat King Cole.

Graças a sua versatilidade, douçura e improvisação, Ranglin participou das gravações de vários dos artistas top da Jamaica, como Jimmy Cliff, Skatalites, Melodians, Bob Marley, Millie Small (arranjando o mega-sucesso “My Boy Lollipop”, que vendeu 7 milhões de cópias ao redor do mundo), para nomear apenas alguns daqueles que já faziam vibrar jamaicanos e cidadãos britânicos nos idos 60.

Sir Ranglin

Considerado como um verdadeiro pioneiro da música popular jamaiquina, Ranglin contribuiu extensamente ao desenvolvimento de estilos musicais, encarnando o protagonismo da guitarra na música jamaicana. Percorreu o mundo em turnês e gravou diversos discos como solista. Desde o final dos 60 até os 70, trabalhou como músico e arranjador, junto a produtores como Duke Reid, de Treasure Isle Studios, além de Dodd, Clancy Eccles e Lee Perry.

Durante quarenta anos Ranglin tocou Jazz e todos os estilos de música jamaicana existentes. Em 1969 foi eleito como o melhor guitarrista do ano pela revista inglesa Melody Maker.Foi reconhecido também por publicações como Downbeat Magazine, Jazz Times, o Instituto Smithsoniano e pelo famoso guitarrista George Benson. Em meados dos 70s foi condecorado com a Ordem da Disntinção do Governo da Jamaica e em 2002 recibeu o título de honra da “University of West Indies.

Nos últimos anos Ranglin demonstrou sua enorme versatilidade em discos que fundem suas raízes caribenhas com artistas africanos como Baaba Maal ou os African Jazz Pioners. Junto a Baaba Maal e seu grupo, gravou o disco “In the Search of the Lost Riddim”, no Senegal. E no mesmo período gravou “Modern Answers to Old Problems”, na Nigéria, junto ao baterista Tony Allen e a vocalista Sylvia Tella. Outro álbum interessante do mesmo estilo foi “Alextown”, gravado na África do Sul, em 2004.

Em 2005 o álbum “Surfin” teve sua faixa, homônima, eleita como fundo musical do comercial da nova Suziki 4x4. A aceitação e popularidade do comercial foi tamanha que o álbum deve ganhar em breve uma versão dub.

Confira a entrevista cedida à Radiola pelo pesquisador argentino Martín Cueto.
Tradução e adaptação: Bruno Lancellotti

Martín Cueto: O que você pode nos dizer sobre seu começo como músico? Sabemos que começou a tocar com seus tios, quando era uma criança. Que tipo de música você tocava naqueles dias?

Ernest Ranglin: Meus pais eram muito religiosos, então eu não podia tocar outro tipo de música, não podia escutar outro tipo de música. Eu escutava a outros músicos jovens apenas. Quando meus tios tocavam , tocavam por conta própria e quando o faziam eu tratava de copiá-los, de fazer o que eles faziam.

MC: Sua carreira profissional começou aos 16 anos, confere?

ER: comecei com a música quando tinha 14 anos, comprando livros, aprendendo daí, porque fui auto-didata. Tinha que estudar esses livros e aprender como tocar porque meus tios não sabiam muito de música. Eles só tocavam de ouvido. Mas quando mergulhei nos estudos, aos 14, decidi tocar profissionalmente. Aprendi a ler partituras seguindo as instruções dos livros. Aos 16 comecei a tocar com uma banda. Foi tudo muito rápido. Val Bennett foi a primeira pessoa com quem toquei e aos 17 com a Eric Deans band.

MC: Soube da história do guitarrista Les Paul, que te presenteou com uma das suas guitarras. Foi nessa época?

ER: Conheci a Les Paul nos anos 60, exatamente em 1966. Na verdade a primeira vez foi em 1963, nas Bahamas, depois voltei a Jamaica em 1964 e ele veio me procurar. As vezes ele e seu grupo tocavam num clube de Nova Iorque, Fat Uses, então eu sabia que se fosse a NY poderia tocar com eles. Ficamos bons amigos.

MC:¿Durante 1955 / 1960 você esteve muito ocupado, tocando com Clue J & his Blues Blasters, a primeira banda que gravou nos estúdios de Coxsone Dodd, certo?

ER: Clue J tocava o baixo na minha banda. Em 1958, ele era meu meulhor músico. Todos os trabalhosgravados com Coxsone, no Studio One, eram meus trabalho, porque aquela era a minha banda. Eu ia tocar em clubes noturnos que eram contrários a aquele tipo de música forte que gravávamos, o Ska. Por isso, por razões “políticas, nas produções de Coxsonne nós aparecíamos apenas como Clue J, para que pudéssemos, os músicos, seguir tocando nos clubes de Kingston sem problemas. Naquele momento eu era diretor musical do Federal Studios para a Federal Record Company e trabalhava para os produtores Lindon e Sonia Pottinger, Cris Blackwell, Dukke Reid e Coxsone, mas não tocar solos de guitarra nos temas, já que meu contrato com a federal proibia. Então tive que tocar io baixo ou a guitarra rítmica ...o Ska, “chack, chack, chack”.

Fui baixista de Baba Brooks também. Toquei baixo em muitas músicas de Prince Buster e em sessões com o guitarrista Lynn Tait.

MC:  E você tocou em “Easy Snapin”, o primeiro ska já gravado? E também em “Take it Easy”, o primeiro rock steady, de Hopeton Lewis?

ER: Correto, em ambas as canções.

MC: ¿Que tipo de música você gravou como diretor musical do Federal Studio? Mento? Tocaste com diferentes músicos?

ER: Quando os músicos descobriam algumas melodias que imaginavam poder chegar a ser um sucesso, eles me davam para fazer o arranjo. Eu tinha que trabalhar nelas, fazê-las e gravá-las com os músicos locais. Por isso, até pela minha posição na companhia, eu acabava sem poder tocar com outras pessoas. Eu podia tocar guitarra ou baixo com outros músicos, mas não podia fazer nenhum trabalho meu como solista. Apenas para a Federal. Gravei álbuns para eles.

MC: ¿Quais são os nomes dos álbuns que você gravou pra eles?

ER: “Mister Ranglin”, “Kingston Pop”, com um pequeno grupo de músicos, 3 ou 4, e com um grupo de 6 ou 7 músicos também. Fiz outros discos também, mas não me lembro dos nomes agora...

MC: É dessa época o “Guitar in Ernest”?

ER: Esse era um disco de jazz. Na verdade há dois com o mesmo nome, um para Chris Blackwell, da Island Records. Eu comecei lá, com ele, porque fui a primeira pessoa a arranjar e trabalhar pra ele. Antes de “My Boy Lollypop” junto a Millie Small, gravei muitos outros músicos locais para a Island, como Boris Gardiner, Wilfred “Jackie” Edwards... muitos grupos e cantores. Comecei nesse selo pra Bllackwell, a primeira gravação foi com Lance Awood – e foi um álbum de jazz. Depois fiz“Guitar in Ernest” e fui a Inglaterra para fazer “My Boy Lollypop”. Daí então vieram “Wranglin” e “Reflexions”. Esses todos foram para a Island. Nossa, há tantas companhias para as quais trabalhei...

MC: Você foi parte da Studio One Band, anos depois de seu trabalho na Federal. Tocou com Jackie Mittoo, Leroy Sibbles e todos esses músicos?

ER: Estive à trabalho da Studio One por bom tempo e nessa época viajava muito entre Bahamas e Jamaica. Na primeira vez que fui as Bahamas deixei um dos meus alunos, Roland Alphonso, a cargo de fazer minhas funções no Studio One. Nessas idas e vindas sempre havia que lapidar ou terminar muitas melodias. Se não gostava do baixista, colocava outro. A mesma coisa com o guitarrista. Eu tinha que terminar o trabalho do meu aluno. Coxsone precisava de dois ou três hits a cada semana. Desse modo, havia muita demanda no estúdio, muitas melodias para trabalhar, especialmente quando eu eu havia passado um periodo maior fora do estúdio.

MC: Depois disso você foi músico da badna do Jimmy Cliff, verdade?

ER: Eu lhe fazia os arranjos entre 1974 e 1977.

MC: O que você pode nos contar sobre o álbum “Ranglin Roots”?

ER: Foi gravado para o selo Aquarious. Infelizmente não fiz um bom contrato com eles e apenas quando o dono da companhia morreu sua esposa me deu todos os tapes. Floyd Lloyd, de Tropic Entertainment, deu outro nome a este disco quando agregou outros temas ao LP original. O disco passou então a se chamar “Ultimate Ranglin Roots”, esse foi o nome.

MC: Nos anos 80 você morou na Flórida e gravou alguns discos com King Spotty.

ER: “From Kingston J.A. to Miami U.S.A.”. de 1981. Esse eu gravei, mas em Nova Iorque, com King Spotty. Quando voltamos a Flórida gravei “We Want To Party”, para a Roonie Records, em West Palm Beach.

“The Guys in Tie”, foi de um grupo, eu dava aulas ao saxofonista. Junto a eles gravei dois ábuns na Flórida, além do “We Want To Party”, foi outro mal acordo, pois a companhia era pequena. Em 1988, em Singapura, fiz “True Blue”.

MC: Em 1995 você gravou para a Island Records o “Bellow The Bassline” e ganhou novamente renome internacional. Me parece que desde então, a cada CD, há uma busca por mostrar diversos aspectos da sua música...

ER:Depois de fazer “Bellow the …” fui ao Senegal e alí gravei “In the search of the Lost….”, com Baaba Maal. Voltei e fiz “Memories of Barber Mack”. Daí veio o “Modern Answers to all Problems”, gravado para a Telarc. E fui então a África do Sul para gravar “Alex Town”. Voltei e preparei “Surfing”, para a Telarc novamente....

MC: Mas por que gravar os CDs de diferentes maneiras? Com músicos da África do Sul, do Senegal, da Jamaica...

ER: Sim. E com músicos nigerianos também, com os quais fiz “ Modern Answers to Old Problems”, junto a Tony Allen (ex-batera de Fela Kuti) e Courtney Pine, bastante popular no jazz inglês.

MC: Qual é sua opinião sobre o novo reggae? O que vocÊ aprova ou desaprova nos novos artistas?

ER: Eu amo meu velho reggae, digo ska, reggae e rock steady. Também gosto de dancehall, mas acho que muito jamaicanso não entendem o que querem dizer esses artistas. As letras são uma mistura que não se entende muito. Me parece que é muito importante entender sobre os temas que tratam cada canção, poder escutá-las e refletir, imaginar sobre o que há ali. Mas nesse tipo de música a linguagem é com um inglês ruim, só gírias e patois. Há muita gente que não consegue entender isso. Mas o ritmo é bom. Recentemente fiz um álbum onde tenho algumas coisas de dancehall.

MC: Como o “Dancehall Fever” que você gravou faz alguns anos?

ER: “Dancehall Fever” é uma canção que está no “Memories of Barber Mack”, que também tem algo de dancehall, mas o que fiz agora é completamente diferente. O disco novo tem que a ver com o dancehall de agora. É diferente. Também tenho um DVD, mas ainda não está terminado.

MC: Obrigado Sr. Ranglin!

Nota do entrevistador: Agradecimiento especial para Elizabeth e Dominga pela transcrição e tradução do texto original.

DISCOGRAFIA SELECIONADA:

* Guitar in Ernest (Island Records, 1961)
* Wranglin (Island Records, 1962)
* A Mod A Mod Ranglin (K & K, 1970)
* Sounds & Power (Studio One, 1970)
* Boss Reggae (K & K,1970)
* Ranglin Roots (Water Lilly, 1976)
* From Kingston J.A. to Miami U.S.A. (Vista Sounds, 1983)
* We Want to Party (Rooney Records, 1988)
* True Blue (Rooney Records, 1988)
* The Pensive (1991)
* Grooving (TKO Magnum, 1996)
* Below the Bassline (Polygram, 1996)
* Soul D'Ern (Jazz House Records, 1997)
* Memories of Barber Mack (Polygram, 1998)
* In Search of the Lost Riddim (Palm Pictures, 1998)
* Modern Answers to Old Problems (Telarc, 2000)
* E.B. @ Noon - Ska Wey Dat (Tropic/Converge, 2000 – Trojan 2003)
* Gotcha (Telarc, 2001)
* Testament (con Pam Hall)
* Ranglypso (M.P.S)
* Now is the Time (M.P.S)
* Alextown (Palm Pictures, 2005)
* Surfin´(Telarc, 2005)
* Earth Tones (junto a Charlie Hunter & Chinna Smith, 2005)

Discografia baseada em pesquisa do extinto site www.skafever.com.ar e completada pelo autor do artigo.

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